No último sábado, dia 29 de março, visitei um velho amigo, jornalista, que não via desde a pandemia: Milton Corrêa, nosso querido Miltinho.
Fui entregar-lhe pessoalmente a comenda João Amazonas, que o PCdoB lhe concedeu na festa de 18 anos de instalação do partido em Santarém, ocorrida no dia 21/03 a qual ele não pode comparecer. Foi mais uma das dezenas de homenagens que continua recebendo, mesmo distante das redações.
Miltinho, o pequeno grande homem do jornalismo é um eterno guerreiro. No início do mês completou 68 anos e continua na luta contra as sequelas que a Covid lhe deixou. Ele sobreviveu à doença depois de semanas intubado. Muita gente não acreditava que sobreviveria, já que pessoas com saúde menos fragilizada que a dele sucumbiram à maldita doença.
A intubação criou um problema em seu esôfago dificultando sua alimentação e fala. E de vez em quando ele é internado por causa de broncoaspiração, que lhe dificulta a respiração. E sempre volta, mesmo quando se acredita que não terá a mesma sorte. Mas não é sorte, é raça, do pequeno guerreiro!
Ele que já tinha problemas de locomoção, teve sua situação agravada depois da Covid, e hoje precisa do apoio de uma cadeira de rodas e o carinho de sempre de sua família, principalmente de sua esposa, Silvia Corrêa, uma abnegada mulher que o acompanha há 40 anos e que se aposentou e vive com ele a filha e o netinho, cercando-o de carinho. “A gente se conhece desde o ensino médio e vínhamos junto do centro pra essas bandas, a pés”, relembra Silvia.
Miltinho recebe visitas de amigos da igreja ou de pessoas que o conhecem como repórter e jornalista com uma carreira de quase 50 anos, desde que começou como repórter da sucursal do extinto jornal de Belém, A Província do Pará, que mantinha aqui o semanário local Jornal de Santarém, comandado pelo saudoso Arthur Martins.
Jota Ninos entregando a Comenda João Amazonas ao jornalista Milton Corrêa
Mas as visitas de seus colegas de profissão são raras, diz a esposa dele. “Com a exceção dos jornalistas Alciane Ayres e Júlio César (Antunes), a maioria de seus ex-colegas não vêm aqui”, constata tristemente. Eu também fazia parte dessa estatística que felizmente zerei.
Estar com Miltinho por uma hora num sábado à tarde e saber sobre sua atual rotina, foi interessante e pedagógico. Ele tem lapsos de memória como sequela da Covid, mas não esquece de muitos colegas de profissão. “Você é o Ninos”, disse ele com uma vozinha quase inaudível, apontando pra mim com o sorriso afável de sempre. trabalhamos juntos algumas vezes ou nos mesmos ambientes públicos buscando notícias, mas principalmente estivemos no mesmo curso de jornalismo, da primeira turma formada em Santarém.
Miltinho já tinha problemas de surdez antes da Covid, que agora se agravaram. É preciso falar perto do seu ouvido para que ele entenda algo. Passou o tempo todo acariciando mais uma homenagem das dezenas que continua recebendo da sociedade santarena, que reconhece nele o espírito de vencedor, diante das piores intempéries. Miltinho nunca se deixou vencer pelos problemas de locomoção, por conta de um problema de nascença. Nem com a surdez adquirida pelos anos, e muito menos pela nefasta Covid que o jogou num hospital, do qual saiu e teima em resistir às dificuldades que a vida lhe impõe.
“Minhas pernas”, me diz ele apontando para as pernas que já não o levam para lugar nenhum. Silvia diz que se não fosse isso, ele voltaria a trabalhar ou pelo menos passear. “Vive lendo e gostaria de poder conversar com os amigos pelo zap, mas como algumas vezes tem lapsos de memória, preferimos lhe tirar o celular, para evitar que enviasse mensagens que poderiam não expressar o que gostaria de dizer”. Como ele nunca mais respondeu ninguém, talvez tenha levado muitos amigos a não o procurarem. “Ele fica feliz quando o visitam, e de vez em quando lembra dos colegas de trabalho”, diz ela pedindo que eu incentive outros colegas a irem até ele. “É só me ligar que a gente arruma ele pra receber as visitas”, afirma. Ela fica ao lado “traduzindo” algumas falas quase inaudíveis e truncadas que ele emite, por conta do problema no esôfago. “Ele ficaria feliz recebendo mais visitas de jornalistas e radialistas da sua época”, conclui.
Quando estou quase pra sair, ele me abraça forte, como quem diz “fica mais”. Me emociono e fico mais uns minutos. Depois do registro fotográfico feito pela filha, dou um abraço novamente e me despeço. Olho pra trás e ele acena sua mão como quem diz “até breve”.
Vou ter que visitá-lo outras vezes. Miltinho é um exemplo de resistência e de ternura. Um homem simples de um coração incrível e de resiliência difícil de se encontrar. Fica o recado para que outros colegas o visitem. Repassarei o contato de sua esposa, para quem quiser reencontrar o nosso decano do jornalismo. Que possamos disponibilizar alguns minutos de nosso cotidiano para reverenciar um pequeno mestre da arte de resistir.
Texto e fotos de Jota Ninos
Fonte: Portal Santarém